14 setembro , 2017

O calcário é universalmente recomendado como corretivo de acidez do solo. Esse posicionamento foi correto nos tempos que não se fazia gestão da fertilidade do solo para obtenção de altas produtividades. Esperava-se o problema aparecer para justificar a recomendação de calcário. Os métodos foram concebidos com foco no problema, alguns na acidez, na presença do Al3+ e outros na ocupação da CTC. Não se pretende com este artigo desqualificar os métodos de recomendação de calagem, mas restringi-los às condições de solos para as quais foram desenvolvidos. A pergunta que se faz é… por que esperar o problema aparecer para se fazer a recomendação? Ainda se encontram agricultores que esperam 5, 10 anos ou mais para refazerem a calagem. Quando se trata da pecuária a situação é mais alarmante, não é difícil encontrar áreas com períodos de 20 anos ou mais sem aplicação de calcário.

A culpa de longos períodos sem calagem não deve ser atribuídas aos agricultores e pecuaristas, afinal o calcário sempre foi recomendado como corretivo de acidez. Também não se deve atribuir a culpa aos técnicos, eles foram ensinados da mesma forma, os livros tratam deste conceito. A ideia não e gerar polemica, mas, ajustar o conceito da calagem, a ciência evolui e, infelizmente a propagação do avanço do conhecimento não acontece na mesma velocidade. No entanto, é preocupante e fica o questionamento… quanta produtividade o Brasil perdeu por não fazer calagem no tempo certo?

Sempre faço a seguinte pergunta: quantas vezes em uma mesma área o calcário deve ser recomendado como corretivo de acidez? Quando muito uma única vez, se for o caso. A partir de então, o calcário deverá ser recomendado como fertilizante, como fonte de cálcio (Ca) e magnésio (Mg), combinado ou não com gesso agrícola (fonte de enxofre). O importante, é sempre repor o Ca e Mg e manter a relação adequada. Não se trata de seguir receitas prontas, o solo não é um sistema estanque, mas sugere-se buscar a ocupação da CTC do solo considerada ideal. Os valores apresentados na Figura 1, são reportados nos livros acadêmicos e técnicos e, também ocorrem em fazendas com altas produtividades de grãos.

Não é necessário que o valor seja igual aos apresentados na figura acima, no entanto, quando os valores da análise de solo estiverem distantes, são estes os valores que devem ser colocados como meta a se atingir. O grande problema é que a maioria dos técnicos e proprietários rurais não fazem gestão da fertilidade do solo. Com muita frequência se encontra valores de H+Al no solo ocupando 50% ou mais da CTC. Esse problema é reflexo de erros na frequência e quantidade de calcário aplicado. Como já reportado, as recomendações são baseadas na correção da acidez. São raras as recomendações baseadas nos teores ideais de Ca e Mg no solo e/ou na porcentagem ideal dos cátions na CTC.

Quando aplicar calcário: em áreas agrícolas consolidadas o calcário não deve mais ser posicionado como corretivo de acidez, na verdade, a acidez deve ser evitada e isso será possível posicionando calcário como fertilizante. Fertilizantes NPK são aplicados anualmente, ou a cada cultura instalada. O objetivo é de se atingir o teor ideal no solo, compensar perdas e para repor o que foi a exportado via produção. Sendo assim, Ca e Mg devem ser aplicados seguindo o mesmo princípio. Portanto, deverão ser aplicados anualmente ou no máximo a cada dois anos (quando houver efeito residual).

O aumento da frequência de aplicação é mais importante no SPD e ILP, sistemas nos quais a aplicação será superficial e, doses elevadas de uma única vez podem gerar problemas. Além disso, a melhoria da eficiência dos sistemas de produção proporcionam aumento de produtividade e mais de uma safra por ano. Algumas regiões do Brasil já fazem três safras por ano agrícola, combinadas ou não com pecuária. Aumento de produção com maior extração e exportação exigem reposição de Ca e Mg com maior frequência. Definitivamente em sistemas de produção consolidados o calcário deverá ser posicionado como fertilizante, isso evitará a limitação do potencial produtivo das culturas utilizadas.

A reposição com intervalos menores evitará problemas. Recomenda-se a alternância a cada nova aplicação entre calcário dolomítico e gesso agrícola. Essa alternância é importante para manter a relação Ca:Mg adequada, porém a tomada de decisão deve ser tomada com base na análise de solo. Um fator importante neste conceito é que a calagem deverá ser acompanhada da aplicação de doses adequadas de nitrogênio, o qual deve ser aplicado na cultura do milho, na pastagem ou em outras situações para atender a demanda do sistema em uso. Além de auxiliar no ajuste da relação C:N do solo, o nitrato (NO3-) formado é um dos ânions que fará o deslocamento do Ca e Mg no perfil do solo, assim como ocorre com o sulfato (SO4-) fornecido via gesso agrícola.

Quanto calcário aplicar: o correto é recomendar Ca e Mg para manutenção dos teores ideais destes elemento no solo, e assim evitar o surgimento da acidez; o que se faz hoje na maioria das recomendações é o contrário, se faz a correção da acidez e por consequência se aplica Ca e Mg. Outro aspecto da calagem não ter foco nos nutrientes, é que, dependendo do tipo de solo, mesmo que haja correção da acidez, os teores ideais não serão atendidos, como exemplo cita-se os solos arenosos com baixa CTC. Assim sendo, a recomendação para atender Ca e Mg deverá ser baseada no teor de argila e na CTC do solo.

Resumo: em áreas agrícolas consolidadas o calcário deverá ser posicionado como fertilizante (fonte de Ca e Mg) e não como corretivo de acidez. Quanto maior a eficiência do sistema de produção maior será a eficiência dos fertilizantes aplicados e da calagem. Na maioria das propriedades a quantidade de calcário aplicada não atende o nível ideal de Ca e Mg.

 

Autor: Edemar Moro – Dr. em Agronomia/Produção Vegetal.

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